Como instituições do setor empresarial fortalecem a sociedade civil

Ao consultarmos o histórico das instituições representativas dos setores empresarial, do comércio e serviço quanto ao protagonismo em fortalecer a sociedade civil por meio de seus associados visando o desenvolvimento local ou regional iremos nos deparar com inúmeros exemplos. Muitos deles foram exitosos e ainda o são, como é o caso dos Estados do Paraná e Goiás com a atuação das Associações Comerciais e Empresariais/Industriais.

Criadas para representar os interesses da classe empresarial e dentro da lei,defendê-los e orientá-los, também lhe são objeto de atenção a cidade e o território no qual se situam, pois aí encontram-se seus negócios. Por consequência, o fortalecimento socioeconômico, discutindo e traçando estratégias em busca de melhores resultados,bem como estabelecendo parcerias com demais entidades representativas da sociedade e poder público estão no foco de trabalho.

Formadoras de líderes, de empreendedores de negócios e de empreendedores cívicos-sociais, as Associações têm se tornado fundamentais, quando não protagonistas, no desenvolvimento, formação e fortalecimento de governanças da sociedade civil que se destinam a pensar, planejar e acompanhar o desenvolvimento das localidades em que se encontram. Em um tripé que envolve a sociedade civil, o poder público e os centros de ensino e pesquisas.

Para Endlich (2007), o desenvolvimento local se caracteriza por diversos aspectos: o empreendedorismo dos atores locais; as habilidades e a formação dos atores; as práticas inovadoras; a sinergia; a conectividade; a competitividade e a participação dos membros da comunidade. Os empreendedores surgem, nesse contexto, com capacidade de criar atrativos para os investimentos econômicos e as localidades serão mais ou menos desenvolvidas dependendo da capacidade de empreendedorismo local.

Cabe ao Estado apoiar e estimular ações como o desenvolvimento de estudos;assessoria técnica, jurídica e econômica; promover a industrialização providenciando solo industrial e formação adequada da mão de obra; gerir entidades financeiras e estimular a criação ou instalação local de empresas; organização de sistema de informação; promover e estimular a participação em feiras, mercados e exposições; bem como captar iniciativas e fomentar a cooperação interempresarial e institucional.

O empreendedorismo cívico-social protagonizado pelas Associações aproxima as iniciativas privadas com as do Estado por meio da formação de uma governança,que pode ser um conselho, uma associação, instituto e desta forma somam forças para o desenvolvimento da cidade e região. Alguns exemplos sobre a atuação das associações na formação das governanças da sociedade civil são importantes para contribuírem no entendimento do assunto aqui exposto. Dentre eles, podemos destacar a ACIM – Associação Comercial e Empresarial de Maringá e a ACIFI – Associação Comercial e Empresarial de Foz do Iguaçu ambas no Paraná. 

Em meados da década de 1990, lideranças empresariais de Maringá (PR) perceberam que a economia do município perdia seu dinamismo. Agravado pela âncora cambial do Plano Real que submeteu toda a indústria à competição internacional facilitada pela apreciação da moeda nacional. Este quadro foi fundamental para que as lideranças empresariais do município de Maringá reunissem a sociedade civil. A ACIM- Associação Comercial e Empresarial de Maringá foi protagonista juntamente com a FIEP – Federação das Indústrias do Estado do Paraná, e a UEM – Universidade Estadual de Maringá foram responsáveis por iniciar um processo de discussão e envolvimento de outras lideranças com o propósito de juntos buscarem a definição de um novo modelo de desenvolvimento para o município de Maringá. Resultou no CODEM – Conselho do Desenvolvimento Econômico de Maringá, que se tornou um case de inspiração para tantas cidades do Brasil.

A ACIFI foi protagonista em Foz do Iguaçu na formação do CODEFOZ – Conselho de Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu em 2012. Se formou coma missão de promover o desenvolvimento sustentável, alinhando e integrando,democraticamente, os interesses da sociedade. O desafio está em planejar a Foz do Iguaçu para 2040.Em Rio Verde – Goiás, a ACIRV – Associação Comercial e Industrial de Rio Verde, preocupada com o crescimento desordenado e a consequente falta de estrutura adequada, promoveu reunião com seus diretores, em maio de 2013 para pensar Rio Verde para o futuro. Começava ali o CODERV – Conselho de Desenvolvimento Econômico de Rio Verde.

O CODEMC – Conselho de Desenvolvimento Econômico de Montes Claros foi criado no ano de 2013. Inspirado no CODEM, dentre os precursores estava a Associação Comercial e Industrial de Montes Claros que juntamente com outras instituições parceiras estruturaram as câmaras técnicas nas temáticas: educação, infraestrutura, mobilidade urbana, meio ambiente, saúde, segurança, desenvolvimento socioeconômico e tributação.

Há inúmeros outros cases pelo Estado do Paraná e pelo país, bem como exemplos de Associações e outras instituições representativas dos setores empresarial,do comércio e serviço, inseridas em um processo de desenvolvimento regional. A região do Oeste do Estado do Paraná é um exemplo, onde 46 Associações integram a Oeste em Desenvolvimento. Um programa da Governança Regional que busca promover o desenvolvimento econômico da região por meio de um processo participativo,fomentando no território a cooperação entre os atores, públicos e privados, para o planejamento e a implementação de uma estratégia de desenvolvimento integrada.

Os exemplos aqui citados demonstram a relevância das Associações no desenvolvimento das cidades. Seja como protagonistas ou não, por meio do empreendedorismo cívico-social, contribuem para sensibilizar e mobilizar instituições,cidadãos na maneira como respondem aos desafios e oportunidades para uma cidade mais eficiente e boa para se viver. Colaboram a pensar em um projeto de futuro, nas competências cívicas a serem desenvolvidas, nos valores a serem preservados, nas boas práticas a serem adotadas, na qual o conceito de cidadania e de democracia, de produtividade, de público é conveniente a todos.

No Estado do Paraná, por exemplo, estão associadas à Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Paraná (FACIAP) 295 instituições para um universo de 399 municípios, certamente um dos segmentos mais organizados e de capilaridade, torná-la um dos protagonistas neste processo parece ser um caminho quedá certo, pois uma sociedade produtiva não se faz apenas com mais empresas, mas também com uma sociedade produtiva no nível social e político, capaz de conquistar maior eficiência pública na educação, na ciência e tecnologia que contribua para a solução de nossos desafios e oportunidades. Por isso a produtividade é um objetivo de todos os cidadãos, não se tratando apenas da capacidade de produção de dinheiro,mas de produzir riqueza.

Márcia Santin – Consultora e palestrante na área de formação de governança da sociedade civil e planejamento estratégico de cidades. Ex-diretora Executiva do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (CODEM).